Já faz uns cinco anos, talvez um pouco menos, eu morava perto do Morumbi e costumava aparecer com mais freqüência aos clássicos e jogos importantes que rolavam por lá -atualmente, cada vez mais raros. Além de assistir às partidas, prestava atenção no barulho característico dessas ocasiões.
O negócio começava já no fim daquela última subida antes da Igreja Universal, na Francisco Morato. Ali, o som das buzinas se misturava aos gritos da Fiel nos ônibus, aos "Corinthians" -devidamente seguidos por "ês"- e a um ou outro rojão. Descia embalado até o Shopping Butantã, e dobrava a Jorge João Saad.
Lá, o barulho era outro. Policiais, o ruído das motos dos policiais, as sirenes de suas motos, o pocotó dos cavalos dos policiais e um parêntese no meio de tanto barulho: o cheiro da merda dos bichos. Mas tudo bem, já dava para ouvir o eco da arquibancada, aumentava o estampido dos rojões, e o tiozinho da cerveja gritava ansioso pelo nosso "clique" no anel da latinha.
Tinha também o silêncio emburrado de um ou outro mano, raro por descer sozinho, jaqueta da Pavilhão Nove nas costas, e com o zunido de algum pipoco da noite anterior no ouvido. Rolava também o playboy loiro de uns 18 anos, gritos de bezerro desmamado, procurando o papai para bancar a numerada superior na mão de algum cambista com voz de raposa.
Apesar de tudo, pouca confusão. Com a batida seca do cacete para uns e o "por ali, senhor" para outros, a PM já garantia a divisão entre geral e cadeira cativa a uns 300 metros do estádio. Na frente do Cervantes, já era possível saber quem iria gritar "senta" e quem mal veria o jogo, ciente do que rolaria só pelo grito do gol.
Mais para frente, o som do surdo descia da Giovanni Gronchi até a praça. Decisão contra time de fora ou Santos e Portuguesa, a nossa torcida se encarregava do monocórdio. Contra Palmeiras ou São Paulo, provocações em alto volume e baixo nível.
Na subida da rampa, um burburinho só e a festa de quem já havia entrado. Só um pouquinho, um pouco mais, e aquele corredor. Aquilo que na TV se parece com um buraco no meio da torcida já foi um portal para mim, a entrada da arquibancada, o lugar onde descobri que o barulho produz calor.
E era assim mesmo. Com a nossa torcida aguardando, eu era recebido pelas vaias do adversário -sim, elas foram mandadas o tempo todo para mim. Agora eu achava legal mesmo era, logo de cara, colocar a minha voz ao lado do povão e urrar em "Lá maior" contra o pessoal do outro lado. Imaginava sempre que um amigo do João e do Michel estava lá. Os dois eram palmeirenses fanáticos -o João chegou a se fingir de aleijado, com uma muleta safada e tudo, para furar fila de ingresso em decisão de Libertadores-, trabalhavam comigo e tinham um companheiro chato pra caralho, que só de lembrar me dá vontade de coçar o saco.
Bem, depois das saudações iniciais ao amigo dos dois, achava um lugar na arquibancada e ficava ouvindo a Simone berrar "Será", e eu me encantava com aquilo. É impressionante como algumas músicas ridículas ganham um ar diferenciado em um contexto bem particular. É irracional, e sei que não é difícil concordar comigo. Aquele "sééééééraaaa... só imaginação" no meio dos cânticos das torcidas era impressionante. Tinha uma força e tanto. Precedia os jogos e colocava tudo em perspectiva -"sééééééraaaa que vamos conseguir vencer... ôôôôôô!". E, no fim, ainda vinha aquele "brigar prá quê, se é sem querer, quem é que vai nos proteger?". Caralho, e ainda penso que se fosse cantada a original, na voz do Renato Russo -que admiro bastante-, o efeito não seria o mesmo.
E rolava então a entrada em campo do trio de arbitragem. Um ou outro "filho-da-puta", aquela vaia estridente, um momento de união entre a gente e os outros. Depois, o adversário -sim, na minha lembrança é sempre o rival que entra primeiro. Não é por nada, mas o nosso grito, um só em milhares, era de botar medo. O "Todo-Poderoso Timão" é uma das coisas mais impressionantes já ouvidas em um estádio de futebol -já ouvi são-paulino, palmeirense, santista, flamenguista, etc., também dizendo isso. É o nosso "We are the champions". É foda, e uma foda prolongada -"ê-ô-ê-ô, é Tricolor, é Tricolor" é uma ejaculação precoce, e não se sabe quem está gozando.
O Corinthians entrando em campo fazia levantar até os velhinhos. Fé profunda, mesmo, de incerteza no resultado, mas de uma comunhão só nossa.
Entre o apito inicial, o intervalo e os 40min do segundo tempo, tudo podia acontecer. Não sei, acabei ficando com a derrota. Sim, hoje nós perdemos. Aquela queda anunciada ainda antes de terminar o jogo.
Desconfio que, para não dar azar ou ter de levar para casa, a torcida queimava os fogos da vitória mesmo na derrota. O barulho de um deles é inesquecível. Um sibilado, sem explosão. Parecia um adeus. Cortava a arquibancada. Serviria de introdução para música do Joy Division. Sei lá, uma "Decades", ou talvez "Insight".