5.7.05

"O fim da inocência" ou "O tempo destrói tudo" ou "Os meus sonhos foram todos vendidos, tão barato que eu nem acredito"

Cara, não era assim que a gente achasse que tudo ía mudar e que o Brasil viraria enfim um País decente. Mas era a esperança de que as atitudes, as posturas, a condução da coisa geral fosse mudar, que existiria ética, que existiria integridade moral.

Decepção é a palavra de 2005. Ainda mais quando eu me lembro desse texto, de quase três anos atrás. E nem faz tanto tempo assim:

"Foi lindo. Bandeiras, camisetas, adesivos, chuva de estrelas, fogos de artifício. Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos. Brancos, negros, mulatos, orientais. Em comum, todos levavam um sorriso no rosto e a esperança no coração. Nunca cantei o Hino Nacional com tanta paixão. Esse é o momento em que tudo é perfeito, em que o futuro é grandioso, em que somos a nação que sempre sonhamos. Inevitavelmente, a decepção virá. Se será maior ou menor, isso vai depender do que Lula e seu governo conseguirão fazer. Por isso, quero guardar com cuidado na memória a sensação de ver a Paulista em festa, quando todos sonharam ao mesmo tempo com um Brasil menos desigual, mais justo, mais feliz."

E agora, José? O que sobrou pra nós? O que que a gente vai esperar? O que sobrou pra sonhar?

a noite esfriou,/ o dia não veio,/ o bonde não veio,/ o riso não veio,/ não veio a utopia/ e tudo acabou/ e tudo fugiu/ e tudo mofou.

30.6.05

Fantasma da Ópera versão 2005


Reprodução/Yahoo

Novo slogan
O publicitário Carlito Maia, um dos fundadores do PT, deve estar se revirando no túmulo por causa do envolvimento do partido nos casos recentes de corrupção. Carlito criou o slogan oPTei, isso bem antes do PT fazer alianças partidárias espúrias. Diante das más companhias do novo PT, o novo slogan do partido poderia ser CooPTei. Imaginei que eu tinha sido o único felizardo a pensar nesse slogan, mas ao fazer uma pesquisa na Internet descobri que alguém teve a mesma idéia um mês antes. Mesmo assim não quis perder o trocadalho do carilho.

Novo blog
Tentarei dividir minha participação quase nula no Escambau com o Mundo Cane, blog que criei recentemente com o intuito de oferecer material apenas para paladares finos.

11.6.05

Currículo é fogo

And it's you when I look in the mirror
And it's you when I don't pick up the phone
sometimes you can't make it on your own


Não deve ser fácil ter um "Achtung Baby" nas costas. O nível de exigência sobre a banda vai parar nas alturas. O último disco do U2, "How to Dismantle An Atomic Bomb", recebeu elogios a rodo em toda a imprensa. Eu ouvi uma vez no discman, no Cometa, com um pouco de sono, e achei meio chato. Até comentei com a Ana que tinha ficado decepcionado, de novo, assim como com o anterior, "All That You Can't Leave Behind".
Novas audições, porém, mostraram que a coisa não é bem assim. É claro que eles não conseguem alcançar o nível de "Achtung Baby", mas mandam muito bem em faixas como o rockão "Vertigo" e a linda balada "Sometimes You Can't Make It on Your Own", com direito a falsete de The Edge nas duas primeiras frases citadas acima.
Dá para perceber, depois de ouvir algumas vezes o disco, que os caras ainda têm tesão na coisa toda de compor, arranjar, gravar, tocar. Não estão apenas "in it for the money", já que grana eles têm bastante. E se Bono anda chato em sua cruzada mundial em defesa dos frascos e comprimidos, há mais honestidade e rock'n'roll em três paletadas de The Edge em "All Because of You" do que em toda a obra do Coldplay.
E é isso que diferencia as grandes bandas das bandas quase. Coldplay? Tô fora. Prefiro o último mais ou menos do U2.

10.6.05

O lixo e a fúria

Graças ao maravilhoso mundo do mp3, novidades caem na minha máquina praticamente todos os dias. Foi assim que acabei ouvindo (três vezes) o novo CD do Coldplay, "X & Y". Veredicto: ele é bem, ãh, Coldplay. Quem ama a banda inglesa, vai adorar o álbum. Quem já torce o nariz, não tem motivos para mudar de idéia.
Algumas canções razoáveis são "Fix You" (começa chatinha, depois melhora bastante), "X & Y" (o refrão dá uma salvada), "Speed of Sound", "A Message" e o bônus track "Til Kingdom Come", uma canção bonita, mas que não chega a empolgar. A única realmente legal, que continuará a ocupar espaço no meu computador lerdo, é "Swallowed in the Sea". Se todas as músicas tivessem esse nível, o Coldplay faria jus à metade do que falam da banda. O resto do CD não é digno nem de comentário.
Enquanto isso, em outro país do Reino Unido, o Franz Ferdinand prepara seu novo álbum. E disponibilizou quatro faixas demo em seu site. Só pela amostra - "Evil and a Heathen", "I'm Your Villain", "Walk Away" e "Well, That Was Easy" - dá pra perceber que os escoceses não perderam a mão. Músicas pra dançar, pra cantar junto, pra ser feliz. Resta aguardar.

7.6.05

Alegria em preto, branco e vermelho

Show encerrado, Jack puxa Meg pela mão e vai para a frente do palco agradecer os aplausos. O público não cansam de bater palmas e gritar. Jack fica por ali cerca de um minuto, apesar da timidez da baterista, que passa a mão pelos cabelos como que sinalizando que quer ir embora. Jack sabe que é foda, que merece a ovação, que o público vai ficar ali a seus pés enquanto ele permanecer no palco.
O show do White Stripes veio para lavar a alma. Fazia tempo que eu não via uma apresentação com tanta energia, com tanta vibração. Na minha modesta opinião, os pontos altos foram a abertura, com "Dead Leaves and The Dirty Ground"; "I Think I Smell a Rat", com o pot-pourri de outras canções no meio; "Hotel Yorba", quando todo mundo pulou alucinado; "Jolene", com todo mundo berrando o refrão; a baladinha "You've Got Her In Your Pocket", na volta do bis, um momento singelo em meio à barulheira, com a platéia em peso cantando junto; "I Just Don't Know What to do With Myself" (devo confessar que torcia o nariz pra essa versão no disco, mas ao vivo funciona muito bem) e a esperada "Save Nation Army" (só não curti o coro de "ôôôôôs" acompanhando a música, isso lembra muito aquela horrorosa versão dance, preferia que fosse um "tã. tã tã tã tã tã."). Faltou "Feel in Love With a Girl", que eles tocaram em Manaus, pelo que ouvi falar, mas deixaram de fora do set list paulistano.
Duas diferenças ficaram claras pra mim ao ver a apresentação de uma banda que está no auge (e não uma que fez sucesso na década de 70 ou 80): a variação de repertório, mesmo que mínima, e a vontade de arriscar, tocar canções que o público não conhece.
Outra coisa impressionante é ver como a banda funciona bem só com os dois irmãos tocando. A Meg segura as pontas com as baquetas, mas o espetáculo é do guitarrista, ele é a grande estrela do show. Jack conversa com o público cantando no meio das músicas, põe o chapéu, tira o chapéu, muda de microfone a todo o momento, toca vários instrumentos, arrebenta as cordas da guitarra. Tem sangue de rock star correndo nas veias.
Que o ingresso foi caro, isso foi, e muito. Mas valeu cada centavo.

22.5.05

Palco de nanquim


Trataram os quadrinhos como "arte menor" por tanto tempo que mesmo quem gosta de gibi costuma usar expressões como "parece um filme" ou "é um verdadeiro romance" para elogiar uma boa HQ. Um dos maiores lugares-comuns de quem escreve sobre Will Eisner, por exemplo, é chamar o estilo dele de "cinematográfico", para dar idéia de como o cara era bom.
"Arte menor" é o caralho. Avenida Dropsie, da Companhia Sutil, em cartaz na faixa lá no Sesi, é uma peça muito legal, e o melhor elogio que se pode fazer a ela é dizer que conseguiu levar para o palco o universo das histórias do mestre Eisner.
Assistir à peça é como ver uma página do criador de Spirit em tamanho gigantesco. Ali está o velho edifício de apartamentos, com a escada de incêndio na lateral, os degraus na entrada e os fragmentos de vida entrevistos nas janelas, igual aos edifícios de tantas histórias de Eisner, que ao longo dos anos vão ficando impregnados dos dramas humanos que corroem sua base. Ali estão os personagens da Nova York de Eisner, seus ternos escuros e seus chapéus. A gestualidade dos atores, aliada à trilha sonora de canções antigas, lembram o ritmo dos personagens de Eisner, o timing que ele inseria ao longo de suas páginas de quadrinhos. A produção é tão cuidadosa que até a luz faz lembrar a tinta sépia com que Eisner imprimiu vários de seus romances gráficos, como O Edifício e Contrato com Deus.
Sem falar na chuva (imagem fundamental de qualquer obra do velho judeu) que cai de verdade sobre o palco. E não se trata de pirotecnia besta para impressionar o público, à la Fantasma da Ópera. A Sutil, que já havia escorregado num virtuosismo oco e metido a pós-moderno em Alice, recuperou a velha forma com o despojado Temporada de Gripe e agora vem com um espetáculo em que os recursos tecnológicos não roubam, mas servem à cena.
Outro desses recursos é o de projetar imagens numa tela entre o público e o palco. O diretor Felipe Hirsch já havia usado o recurso em várias peças, mas em nenhuma com um resultado tão bacana, como se a técnica tivesse sido inventada para levar ao palco os balões e recordatórios dos gibis.
Só senti falta ? mas aí é uma questão pessoal ? de ver no palco um dos Eisner que mais aprecio, o Eisner contista/romancista, criador de tramas, personagens e diálogos inesquecíveis, o Eisner das histórias tardias do Spirit (em que o super-herói virava coadjuvante dos dramas das pessoas comuns) e dos romances gráficos.
A adaptação prefere um outro Eisner, o que gostava de flagrar instantâneos da vida urbana, levar ao papel cenas minúsculas que acontecem ao nosso lado sem que a gente tenha tempo, saco ou sensibilidade para ver. Seguindo por este caminho, a peça se estrutura com cenas de poucos minutos, mais ou menos independentes umas das outras. É o Eisner de livros como A Grande Cidade, em que ele observa a cidade em histórias construídas a partir de objetos como janelas, bueiros, escadas.
É uma opção dos caras, claro. Mas me doeu ver na peça o que fizeram com Gerard Shnoble ? uma das melhores HQs de todos os tempos, a história do joão-ninguém que reprime a vida inteira o seu dom extraordinário de voar e que acaba morto antes de revelá-lo ao mundo, que termina com o trecho antológico Então... já sem vida... Gerard Shnoble despencou rumo ao chão. Mas não chore por Shnoble... É preferível derramar uma lágrima por toda a humanidade... Afinal, pessoa alguma em toda a multidão que viu seu corpo ser levado... soube ou mesmo suspeitou de que, naquele dia, Gerard Shnoble havia voado. A história ficou reduzida a uma cena de poucos minutos com um ator mudo, uma narração in off e uns piroteios com cabos de aço.
Claro que aí já tem uma implicância pessoal. Apesar disso, a peça é legal, sim, e merece ser vista. Além de tudo, tem a gostosinha Maureen Miranda pagando peitinho num belo strip. E serve para mostrar, para quem ainda vê quadrinhos como "arte menor", que um grupo talentoso precisou de um puta trabalho com atores, cenários, luz, trocentos litros d'água, projeções cinematográficos e música só para reproduzir o que Will Eisner fazia, sozinho, com papel e nanquim.

A quem interessar possa
O texto acima está no meu novo blog. Nada de rompimentos. É só mais um projeto paralelo, como outros e outros. Em breve, eu volto aos meus posts exclusivos no Escambau. Que é como a casa dos pais da gente.

8.5.05

Afronta ao vocabulário

Ainda bem que o Comitê Nacional de Educação em Direitos Humanos decidiu suspender a distribuição de uma cartilha chamada "Politicamente Correto". A obra, criada pela Secretaria Nacional de Direitos Humanos, trazia entre as 96 palavras ou expressões consideradas discriminatórias algumas pérolas. O manual defendia que chamar alguém de barbeiro no trânsito poderia ofender os profissionais que trabalham em barbearias. Será que eles consideram um insulto a palavra ser usada para identificar o inseto transmissor da doença de Chagas? Da mesma maneira, segundo a cartilha, os profissionais do circo poderiam ficar magoados quando alguém ataca um desafeto com o adjetivo palhaço. Sendo assim, não se poderia mais lamentar que muitos políticos fazem o cidadão de palhaço, pois correríamos o risco de sermos discriminatórios. Depois da cartilha, será que o próximo alvo do Governo Federal seria fazer uma mudança geral e irrestrita nos dicionários e nos vocabulários de cada região do País? Parece brincadeira, não?

Mas o mais risível é o manual defender que funcionários públicos passem a ser chamados de servidores públicos "para enfatizar que servem ao público mais do que ao Estado". Nesse caso é trocar seis por meia dúzia, não? Se não me engano, a praga do politicamente correto começou nos Estados Unidos no final dos anos 80, defendendo que cegos passassem a ser chamados de deficientes visuais e anões de indíviduos de baixa estatura, entre outras bizarrices vocabulares. A cartilha da Secretaria Nacional de Direitos Humanos também traz alguns erros de interpretação dos verbetes. Baianada por exemplo, é definida com a expressão que "atribui aos baianos inabilidade no trânsito". Na verdade, acho que baianada sempre foi usada pela paulistada do "dois pastel e um chopis" para definir qualquer cagada supostamente cometida por nordestinos. Eu, como bom baiano, nunca me ofendi com essa máxima de gente tacanha.

Os que defendem o politicamente correto querem patrulhar até os humoristas, que não devem ter compromisso com nada. Afinal, quem não se diverte, por exemplo, com o Chaves dizendo horrores da dimensão física do sêo Barriga? Algumas das chamadas minorias (quando não verdade são maiorias), como os homossexuais, aceitam numa boa alguns termos considerados como pejorativos como bichas, veados, bolacha e gilete. Nos States, os negros dos guetos costumam usar a palavra nigger (algo como crioulo) para se referirem uns aos outros. No Brasil, alguns rappers costumam usar a palavra preto no lugar de negro. Mas isso não quer dizer que os gays e os negros não devam buscar os seus direitos caso se sintam ofendidos quando alguém usar essas mesmas expressões em determinadas circunstâncias.

Piadinha
Aproveitando o tema, segue abaixo uma piada que recebi recentemente e que faz parte do humor considerado preconceito de caráter regional:
Dois compadres goianos se encontram depois de mais vinte anos.
- Ô cumpade, quantempo sô! Tudo bão cocê?
- Bão sô, i cocê?
- Bão tomém!
- E a patroa e os mininos, mi conta sô!
- Pois é, o mais véio dá um trabaião, ele é desses tar de homissexuar...quando disimbesta a dá o butão, num pára mai....mai dá, dá, dá....mai dá o dia intero!
- Nó cumpade, que disgosto!
- E o pior é que u du meio foi infruenciado por ele! Resurtado, dá tomém! E quando junta os dois intão...mai dão, dão, dão...dão o dia intero!
- Eita cumpade, que trem isquisito sô!!! E o seu fio mai novo, num vai dizê que ele tomém foi infruenciado....
- Pra num deixá infruenciá o caçula, mandei ele pra casa da vó lá pás banda do Sul.
- Intonces, esse iscapô?
- Bão! Virô gaúcho, só dá quando bebe...
- Meno mar, né cumpade?
- É...mai bebe, bebe, bebe...bebe o dinterim.

28.4.05

Um dia vão aprender?

Que mané blog o quê! Umbiguismo, com U maiúsculo, é a Globo com esse papo intragável de 40 anos. Vá lá que é preciso tirar o chapéu para eles na parte técnica e tal, mas haja saco para agüentar o papo de "bons serviços prestados". Daqui a pouco neguinho vai se arvorar de defensor da democracia, porra!
Assim, é preciso registrar a torcida presente na palhaç..., digo, no jogo da Seleção Brasileira lá no Pacaembu. Você não entendeu o que a torcida gritava, durante o marasmo do segundo tempo? (claro, se você ainda estava acordado.) Pois era:
- S-B-T! S-B-T!
E também teve o já clássico:
- Ei, Galvão, vai tomar no cú!
E a variação:
- Ei, Galvão, pede demissão!
Fora o grito de "Olé" quando os guatemaltecos (consegui usar essa palavra!) tocavam a bola, mas aí já é a tradicional birra dos paulistas com a seleção, não tem nada a ver com a Globo. Mas não deixa e ser engraçado perceber que os herdeiros do dr. roberto, vinte anos depois, ainda não se ligaram de que o povo não é bobo.

(A César o que é de César: quem me deu o toque sobre os gritos da galera foi o Luiz, nosso ex-colaborador e que agora deixa seus registros aqui)

11.4.05

R$ 165,10

Pagar Imposto de Renda é um saco. Pior que isso, só tirar o extrato do banco e verificar que o valor acima foi a bagatela paga de CPMF durante todo o ano. Mais legal ainda vai ser se eles cruzarem esse valor de CPMF com o valor de renda declarada. Aliás, quem disse que CPMF não serve pra nada? É uma bela duma cagüeta do caralho, isso sim!

7.4.05

Contagioso?

A cidade pra onde devo me mudar em algumas semanas é um lugar engraçado. Falta algo, mas não sei dizer direito o que é.

Receber um ex-morador (agora ilustre) com festinha, por exemplo. Tá aí uma atividade na qual não vejo muita graça, mas num fim de tarde agradável sem muito pra se fazer, até que se pode passar por perto pra ver a farra e apavorar uns locais, se tiver cerveja barata.

Colocar um outdoor na rua com os dizeres ´Valeu, Fulano´ já é mais estranho, mas não tão estranho quanto colocar o próprio Fulano em cima de um carro de bombeiros e sair com ele pela cidade. Pelo que vejo esse carro de bombeiros não é muito requisitado, caso contrário estaria de prontidão para apagar algum eventual incêndio ou algo do tipo, ao invés de servir como trio elétrico caipira.

Engraçado o que é aparecer na TV. Agora tá cheio de mulher gritando quando ele passa, e de repente todo mundo sabe onde o cara mora. Talvez alguém queira falar pra esse povo que eles fizeram uma festa pro perdedor. Que o japa não "venceu" a "competição" do Big Brother e que isso não tem a mínima importância, e continuaria não a tendo, mesmo que ele tivesse "vencido".

Bom, ou talvez tenha, como material de estudo pra quem acredita em memética...

3.4.05

Big Brother Polônia

Diz aí: mandar o Pedro Bial para cobrir a morte do papa lá na Polônia, apenas dois dias depois da "lavagem de roupa suja", e ainda querer que a gente leve a sério, é ou não abusar da boa vontade do telespectador?

26.3.05

Tíquete número 43899067

Ano passado, logo que voltei da Zoropa, eu assisti uma apresentação sobre a reestruturação do nosso suporte. Era uma apresentação bonita, feita no powerpoint, cheia de animações, música e efeitos sonoros. Dizia que o nosso suporte era superdimensionado, que pagávamos muito caro por um serviço excelente, e que a empresa precisava cortar custos. Por isso, eles iriam terceirizar o suporte técnico, a fim de que tivéssemos um serviço de nível adequado às nossas necessidades (leia-se: ruim) e a um custo mais baixo.
Me intriga ao ler o relatório financeiro do ano passado, que o maior aumento de despesas no nosso orçamento ficou por conta do suporte técnico. Qualidade adequada às nossas necessidades parece ser mais ou menos do jeito como eu vou descrever abaixo.
Eu precisava que um administrador do sistema fizesse o login na minha estação Unix, e reiniciasse ou destravasse um serviço que estava causando certa demora no envio de e-mails.

A tarefa consiste mais ou menos no seguinte:

Digitar: ssh magneto
Entrar com nome de usuário e senha
Digitar: /usr/bin/purgestat
Apertar ENTER

Pode ser feito em aproximadamente 45 segundos por um administrador experiente. Na verdade acho ótimo que eles não me dêm a senha de administrador, porque eu não sou um administrador experiente, e se me deixarem, cedo ou tarde vou acabar fazendo alguma caca das grandes, e isso não vai ser legal. De modo que peguei o telefone e disquei o numero da besta.
A máquina atendeu após quatro toques, com aquela voz amigável de sexta-feira à tarde depois do serviço e de uns dois chopes:

"Bem vindo ao IT Service Desk. Para dúvidas sobre Windows, pressione 1. Para dúvidas em Unix..."

Aperto o 2 no teclado do telefone, sem muita paciência.

"Sua chamada estará sendo direcionada para um de nossos analistas"

Não sei dizer onde peguei essa mania de cantarolar junto com as musiquinhas de call centers. Sei lá, me parece que faz a gente se distrair um pouco e esquecer do tempo que estamos perdendo ali no telefone. É meio que uma luta de braço entre os dois lados da linha: eu de um lado cantarolando a musiquinha do Help Desk, e a atendente do outro, provavelmente lixando as unhas e esperando pra ver quanto tempo eu aguento antes de desligar. Por fim ela atende, e me pega ainda distraído, cantarolando aquele jingle new age criado para nos deixar mais relaxados ante ao que vamos enfrentar nos próximos minutos.

"Help Desk, Fulana, bom dia"

É segunda-feira de manhã, e decido começar bem a semana.

"Bom dia, Fulana. Meu nome é Ricardo, estou aqui no centro de pesquisas. Hoje o meu e-mail está um pouco lento, e descobri que estou com um processo meio que travado. Eu preciso que terminem e reiniciem o sendmail na minha estação, ou que rodem um comando purgestat para tirar as entradas que expiraram da base de dados dos hosts."

A linha permaneceu muda tempo suficiente para que o silêncio premeditasse algo desagradável.

"Você já reiniciou o Outlook?"

Eu tinha certeza de que digitei "2" quando aquela máquina estúpida atendeu, mas decidi deixar passar.

"Eu não estou usando o Outlook. Na verdade nem tenho instalado na minha estação"

"Ah, entendo. Olha, então você vai ter que reiniciar o Windows"

As coisas começaram a ficar mais claras.

"Ah, olha, eu não estou usando o Windows, estou rodando Unix numa estação aqui do centro de pesquisa e desenvolvimento. Será que daria pra passar pra um analista de Unix?"

"Mas você já reiniciou? Talvez só isso já resolva"

Tentei argumentar que eu deixei uns testes rodando no fim de semana, e que iria levar mais umas 6 a 8 horas pra ficarem prontos, e que não seria uma boa idéia parar com eles agora.

"Mas você pode reiniciar a estação e recomeçar os testes de onde parou?"

"Não."

"Olha Rodrigo, eu vou então estar abrindo um chamado e encaminhando ao segundo nível de suporte. Por favor anote o número: 43899067. Obrigada e tenha um bom dia"

"Espera, quanto tempo leva pra alguém vir falar comigo?"

"Eles devem estar analisando a sua requisição dentro de três dias. Mais alguma dúvida?"

Eu ia pedir o telefone do CVV, mas ela provavelmente iria dizer que "não tem autorização para estar fornecendo o ramal dos analistas" ou algo do gênero. Deixei pra lá, eu iria reiniciar a estação depois de terminar os testes. Dali a uns dois dias quando o cara do suporte viesse perguntar o que estava errado, eu poderia dizer que o problema ja tinha sido resolvido.

E também porque ninguém escreve mesmo nada que eu tenha vontade de ler numa segunda-feira.

19.3.05

Mais barato, mais errado

Então eu fui deixar o carro lá no Extra, como geralmente faço às sextas-feiras, pra pegar o Cometa. Na entrada, a menina me entregou o cartão e um folheto. Achei que era a mesma propaganda de troca de óleo que eu recebi 200 vezes nos últimos dois anos, mas era outra coisa:
"O Extra Sorocaba apresenta
19/03 - Sábado
TEODORO E SAMPAIO
Na inauguração da mais nova casa de shows de Sorocaba
Nova Pista
Novo Senário
Entrada bla-bla-bla"
Daí eu não consegui ler mais nada. E fiquei pensando que eles me enchem o saco quando eu deixo o carro lá, numa das 4 mil vagas do estacionamento, e dão dinheiro pra patrocinar um folheto escrito "senário". Então tá, né?

17.3.05

Quem tem medo de Elis Regina?

Em homenagem ao aniversário de Elis Regina - não que eu seja grande fã dela, diga-se de passagem -, vou contar uma história de quando eu era criança pequena lá no interior.
Durante boa parte de minha infância, ficamos sem ouvir discos em casa, por causa de uma vitrola quebrada e nenhum dinheiro para consertá-la. Mas me lembro perfeitamente dos meus dois LPs dessa fase: "Pirlimpimpim" e "A Arca de Noé".
O meu preferido sempre foi "A Arca". Escutava-o com freqüência, adorava versos como "o pato pateta pintou o caneco" e "era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada". Mas a terceira música do lado A era um suplício pra mim. Chorava compulsivamente ao ouvi-la.
Se você nunca escutou "A Corujinha", interpretada por Elis Regina, imagine a cantora usando seu tom de voz mais dramático nos versos: "Corujinha, pobrezinha, todo mundo que te vê, diz assim, ó coitadinha, que feinha que é você". Eu morria de dó da corujinha. Morria mesmo. Pô, eu até chorava. O resto da canção dizia que ela não tinha amigos porque era feia.
Fiquei anos sem escutar a música, até que meu pai comprou um daqueles aparelhos quatro-em-um: toca discos, fitas, cd e rádio, uau. Um dia eu e uma amiga estávamos em casa e coloquei o LP pra tocar. Quando chegou na "Corujinha", foi batata: meus olhos se inundaram, quase que por instinto. Minha mãe, que também não devia ouvir a música há um bom tempo, correu pra me lembrar da história, dizendo que ela sempre pulava essa faixa - mas com todo o cuidado para não riscar o bolachão.
Isso deve ter tudo a ver com o fato de, na infância, eu nunca conseguir chamar alguém de feio. Pra mim, usar tal adjetivo era como condenar o amiguinho à solidão eterna.
Sempre achei que aquilo não era música pra criança.

7.3.05

Uma poesia pra começar bem a semana

Los Ensueños

Mar adentro, mar adentro
y en la ingravidez del fondo
donde se cumplen los sueños
se juntan dos voluntades
para cumplir un deseo

Un beso enciende la vida
con un relámpago y un trueno
y en una metamorfosis
mi cuerpo no era ya mi cuerpo
era como penetrar al centro del universo

El abrazo más pueril
y el más puro de los besos
hasta vernos reducidos
en un único deseo

Su mirada y mi mirada
como un eco repitiendo, sin palabras
más adentro, más adentro
hasta el más allá del todo
por la sangre y por los huesos

Pero me despierto siempre
y siempre quiero estar muerto
para seguir con mi boca
enredada en sus cabellos


Ramón Sampedro.

3.3.05

O rock dos gaúchos

Sexta-feira à tarde eu estava aqui no trabalho decidindo se iria à manicure ou se daria um jeito nas unhas em casa mesmo, já que a programação do sábado era a festa de formatura de uma amiga, quando um amigo, tal qual o diabinho dos desenhos animados, apareceu pro meu lado abanando dois convites para a gravação do acústico MTV de bandas gaúchas. Ou seja, a festa rodou.
Grupos escolhidos para o acústico: Wander Wildner, Bidê ou Balde, Cachorro Grande e Ultramen, cada um com direito a cinco músicas. Vi só as duas primeiras bandas, as outras gravaram no domingo.
Uma coisa engraçada foi que me senti em Porto Alegre, parecia a todo momento que meu sotaque tava errado. O Bidê tocou primeiro e, apesar das gracinhas e piadas internas terem enchido um pouco o saco no final, o show foi bem bacana. Set list: "Microondas", "Bromélias", "E Por Que Não?", "Melissa" (com a participação especial do Roger do Ultraje) e "Mesmo que Mude". Essa última, do CD mais recente, merece menção especial: letra fofa, ficou ainda mais bonita na versão ao vivo.
No final do show, o vocalista Carlinhos tirou o terno e deixou aparecer uma camiseta com uma imagem de Jesus na frente e a frase escrita à mão atrás: "Wander Wildner é Deus". Era o prenúncio do clima do show que viria a seguir.
Wander chegou sozinho ao palco, tocou no violão e cantou uma música. Depois contou que havia deixado o camarim para ir ao banheiro e, quando voltou, não encontrou ninguém da banda lá. Foi para o palco achando que os comancheros estariam por ali, mas que nada. Resolveu sentar e tocar sozinho mesmo, uma espécie de aquecimento para sua sensacional apresentação.
Já com o reforço dos comancheros, Wildner mandou "Lugar do Caralho", que a platéia entoou na maior empolgação, mas que também deve ficar de fora do CD/DVD. O set list oficial tinha: "Bebendo Vinho" (emocionante), "Mantra das Possibilidades" (mano, lembrei de você!), "No Ritmo da Vida", "Eu Não Consigo Ser Alegre o Tempo Inteiro" e "Eu Tenho Uma Camiseta Escrita Eu Te Amo" (a minha preferida, linda de morrer).
Amigos, foi do caralho. Mesmo não tendo visto os dois outros shows, só o Wander já vale o CD/DVD/programa de TV. Segundo o site da MTV, o Acústico Bandas Gaúchas vai ao ar dia 29 de maio, às 19h30. Não perca.

28.2.05

A velha história do foco...

É claro que o Lula fez merda. Pela enésima vez em dois anos, sofreu mais uma crise de logorréia, ou diarréia verbal. Mas o que eu acho engraçado é que ninguém, ninguém, na grande imprensa, foi atrás de saber que catzo de denúncias eram essas que ele teria encoberto. Comprou-se a versão que ele falou do BNDES, que era coisa do Lessa e tudo bem. Pau no Lula e as tais denúncias que continuem embaixo do tapete, afinal de contas, pra que mexer em esqueletos fedorentos, né? Por que a Folha, agora com participação da Portugal Telecom, ou o Estadão, um dos primeiros donos da BCP, hoje Claro, iriam querer revirar alguma coisa a respeito da privatização das teles?
A mesma posição é a dos tucanos. Afinal de contas, que interesse eles têm de mexer na merda deixada por FHC? É melhor fazer barulho, usar de eufemismos mil para chamar o Sapo Barbudo de burro e que fique por isso mesmo. Foi até bom pra tirar um pouco o foco do Severino...

25.2.05

A pacoteira do deputado

O Escambau, num furo nacional de reportagem, publica com exclusividade o esboço de um pacote com dez projetos de lei que o presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, pretende apresentar ao Congresso nos próximos dias.
Excelentíssimos deputados, nobres colegas,
com o objetivo de moralizar a sociedade e sanear a devassidão moral que infelizmente imperam em nossos (e vossos) dias, compareço perante vós para propor uma série de medidas que visam, antes de mais nada, sem tergiversações e acima de tudo, contribuir de maneira decisiva em nossa luta noturna e diuturna contra a pornografia, a safadeza e a sacanagem. Outrossim, vamos a elas:
1 - A programação televisiva, radiofônica e cinematográfica deverá se pautar pelo respeito à moral cristã. As cenas de nudez ficam terminantemente proibidas, e as telenovelas só poderão mostrar beijos entre casais casados ou em vias de se casar até o final da trama. Torna-se obrigatória a inclusão das belas melodias do sacerdote Marcelo Rossi nas trilhas sonoras das telenovelas e na programação diária de todas as emissoras de rádio.
2 - Seguindo o nobre exemplo dos países islâmicos (que, mesmo sem conhecer o Deus verdadeiro, demonstram respeito pela retidão moral), fica proibido o acesso a sites da Internet com conteúdo indecente.
3 - O período de cada escola deve começar e terminar com o Hino Nacional e o Pai-Nosso, para instilar em nossas crianças, futuro da Nação, o amor à Pátria e a Deus.
4 - Ainda nas escolas, fica proibido o ensino de doutrinas contra a fé e que contrariam a palavra da Bíblia, como a teoria evolucionista. Daqui para frente, nossas crianças passarão a aprender que Deus criou o mundo em sete dias, nos conformes do texto sagrado. E que os dinossauros (aqueles calangões dos tempos idos) desapareceram porque não chegaram a tempo de embarcar na Arca de Noé.
5 - Ficam proibidas as pesquisas com células-tronco e transgênicos, coisa de cientistas sem moral que querem brincar de Deus e promover o aborto.
6 - O certificado de virgindade, com exame médico feito de forma respeitosa, mas embasada, torna-se obrigatório a toda mulher que deseje contrair matrimônio. (Adendo: o governo federal vai financiar pesquisas científicas com o objetivo de buscar formas de atestar também a virgindade das regiões traseiras, evitando a abominável prática das mocinhas que liberam o fiofó para se entregar à lascívia sem despender o lacre da frente).
7 - Seguindo o nobre exemplo da rede Blockbuster, todas as locadoras de vídeos, DVDs e congêneres ficam proibidos de oferecer filmes do abominável gênero pornográfico, os quais serão empilhados nas praças públicas e queimados em grandes fogueiras, para sanear nosso ambiente moral e, ademais, ajudar a aquecer os desabrigados nas noites frias.
8 - Arquitetos e engenheiros ficam obrigados a limitar as dimensões dos quartos de funcionárias domésticas a no máximo 2 x 2 metros. Objetiva-se evitar que as empregadinhas levem companhia para seus quartos, promovendo, assim, a devassidão e a desagregação familiar.
9 - Estipula-se a criação de um gatilho salarial, a um índice equivalente a 300% acima da inflação, para reajustar os salários dos deputados federais. Afinal, saco vazio não pára em pé, e os nobres colegas precisam estar bem forrados para combater a contento as sacanagens e imoralidades da vida nacional.
10 - Por meio de emenda constitucional, fica proibido o aborto mesmo nos casos de risco para a vida da gestante, de estupro e de gravidez de feto anencefálico ? afinal, é contra o espírito da Carta Maior discriminar um indivíduo pela mera ausência de cérebro. A História mostra que um indivíduo nestas condições pode muito bem evoluir de maneira satisfatória e, nas condições adequadas, chegar inclusive à presidência da Câmara.

22.2.05

42

Fazia muito tempo que não tinha sonhos estranhos. Acho que por influência de "O Guia do Mochileiro da Galáxia", que li na semana passada, tive um bastante curioso há umas duas madrugadas.
Eu andava por uma rua com uma atmosfera bastante carregada, meio lusco-fusco, talvez o amanhecer ou um fim de tarde e, de repente, entro em uma cabine, parecida com um caixa eletrônico, e aperto um botão. Saio de lá numa boa, sem me preocupar e, alguns metros depois, deixo o olhar em primeira pessoa e sou abordado por uma equipe de reportagem da TV Globo, correndo em minha direção, como se o mundo fosse acabar.
O repórter chega abolindo a linguagem formal e vai logo perguntando:
- Cara, você acabou de apertar o botão que provoca "O" fim do mundo. Por que você fez isso?
Eu dou uma resposta bem direta -até me surpreendi durante o sonho com essa capacidade então recém-adquirida-, sem comoção:
- É que não tinha ninguém protegendo, por isso eu achei que não fosse nada importante e então apertei.
Aí, começa a subir uma fumaça acinzentada, surge o rosto do George W. Bush, e aparece a tropa de choque para me levar. Eles me prendem, mas eu vou numa boa, mais ou menos como o Mersault, de "O Estrangeiro". Na seqüência, meu irmão dá declarações favoráveis a mim, minha mãe me defende diante das vizinhas e meu pai fica na dele, discutindo futebol. Enquanto o mundo acaba -e parece que ele demora a acabar-, mantenho uma postura cínica durante um insólito julgamento, pois, pelo visto, ele não faz tanto sentido. No fim, não ficou bem claro se o mundo escorreu pelo ralo, se fui condenado ou se isso tinha mesmo alguma importância.

18.2.05

Beatles versão swf

A coisa mais sensacional que vi hoje foram essas animações com músicas dos Beatles. Genial quem fez, seja lá quem for. Como disse uma amiga, o flash vai dominar o mundo. Clica aí:

Come Together
I Feel Fine

11.2.05

Um espírito baixou na Febem

"Foi o Exu que baixou nele sinhô", disseram cinco jovens ao delegado plantonista do 81º DP (Belém) ao negarem a acusação de que teriam espancado um colega de cela da Febem da Vila Maria, na Zona Norte de São Paulo. Em vez de permanecerem calados e só falarem em juízo, os adolescentes fizeram questão de se defender na delegacia e cada um repetiu a mesma versão sobrenatural para justificar a cara estropiada do saco-de-pancadas.
Policiais e monitores da Febem quase começaram a acreditar que o caso tinha alguma influência espiritual ao ver que um advogado chegou no 81º DP em poucos minutos. "A gente nem sabia o nome dos envolvidos ainda e o advogado já estava na delegacia antes da gente", comentou um dos monitores. "Ei, doutor! Foi o Exu também que avisou o senhor do ocorrido?", perguntou um dos funcionários da Febem para o adevo.
Dando risada, o advogado, que estava na quadra da Império de Casa Verde comemorando o título de campeã do Carnaval paulistano, confirmou que Exu poderia ter sido um de seus contatos. "Então o senhor vai encontrar seu honorário na próxima esquina, pois esses meninos não tem onde caírem mortos", disse um dos monitores. O advogado confirmou aos jornalistas que os adolescentes realmente tinham posto a culpa no Exu durante os depoimentos. "Mas não fui eu quem orientei isso não", se esquivou. O adevo só faltou se benzer.

2.2.05

Um post vagabundo

The Blower's Daughter (Damien Rice)
And so it is
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it is
The shorter story
No love, no glory
No hero in her sky

I can't take my eyes off you (5x)
I can't take my eyes...

And so it is
Just like you said it should be
We'll both forget the breeze
Most of the time
And so it is
The colder water
The blower's daughter
The pupil in denial

I can't take my eyes off you (5x)
I can't take my eyes...

Did I say that I loathe you?
Did I say that I want to
Leave it all behind?

I can't take my mind off of you (5x)
I can't take my mind...
My mind...my mind...
'Til I find somebody new


"Closer" começa e termina com essa música, de chorar de tão linda e triste. E ela reflete bem o clima do longa. Principalmente no último verso, sussurrado jocosamente pelo cantor: "eu não posso tirar você da cabeça... até que conheça uma pessoa nova". O filme é uma porrada, não muito recomendado para casais apaixonados.

Já na linha água com açúcar, "Meu Tio Matou um Cara" também deixou uma canção grudada na minha cabeça, "Por Onde Andei", do Nando Reis. É a que toca quando o Duca vê a Isa ficando com outro menino na festa. Eu não sou lá muito fã do Nando, mas essa música é linda, né não?

Desculpe estou um pouco atrasado
Mas espero que ainda dê tempo
De dizer que andei errado e eu entendo

As suas queixas tão justificáveis
E a falta que eu fiz nessa semana
Coisas que pareceriam óbvias até pruma criança

Por onde andei enquanto você me procurava
Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me falta

Amor eu sinto a sua falta
E a falta é a morte da esperança
Como um dia que roubaram seu carro
Deixou uma lembrança

Que a vida é mesmo coisa muito frágil
Uma bobagem uma irrelevância
Diante da eternidade do amor de quem se ama

Por onde andei enquanto você me procurava
E o que eu te dei foi muito pouco ou quase nada
E o que eu deixei algumas roupas penduradas
Será que eu sei que você é mesmo tudo aquilo que me faltava


Desculpem o post rapidinho, vi muitos filmes ótimos nos últimos tempos, como "Machuca" e "De Passagem" (esse no vídeo), mas anda faltando tempo pra escrever. Vou ganhar na mega sena e parar de vez com esse negócio de trabalhar.

Trabalho, ética e blá-blá-blá


Troca de puleiro: Doutora trai Enéas e fica com Alckmin
Sim, sim... Uma gralha entre os tucanos:
"Meu nome é Havanir, 45!"

27.1.05

Rodando com o Bahia

Bem, o cara não era exatamente um apaixonado por carros, mas não conseguia viver sem ter algo que o levasse a algum lugar. E, por causa disso, topava qualquer parada.
Certa vez, uma lona gigante foi erguida sobre a terra vermelha, no lugar onde antes existia só um buraco. Aos poucos, surgiram os anões, os elefantes, as trapezistas, os palhaços e os animais um pouco mais ferozes. Era a gênese da alegria. Em dois dias, desapareceram todos os gatos de rua e também alguns de família. A molecada fazia escambo com o dono do circo, trocando os bichanos por ingressos. Isso garantia uma alimentação viva e variada aos leões velhos e famintos -e um pouco de diversão para a garotada. No fim das contas, um negócio justo.
O Bahia também queria negociar. Com fauna tão rica presente na cidade, por que não algo que envolvesse bichos? No meio de uma venda de uns dois ou três bezerros de um sitiante para um fazendeiro local, ele ficou com o equivalente, na época, a uns R$ 500. Isso era uma fortuna que precisava ser bem empregada.
O dono do circo, que também era mágico, tinha vários veículos. O Bahia queria apenas um. Um dos leões estava pronto para morrer. Com o sol avermelhado e uma platéia incrédula como testemunhas, os três se encontraram ao lado da lona num fim de tarde de setembro. O destino deles nunca mais seria o mesmo.
Meia-hora de conversa, um bate-papo em que apenas o leão não demonstrou empolgação alguma e, no dia seguinte, logo pela manhã, Bahia convida a gente para ir ao circo. Posso dizer que, até então, nunca tinha assistido a uma matinê às 8h, mas o espetáculo seria inesquecível. Com uns R$ 400 na grana de hoje, nosso amigo tirou da cartola uma Veraneio-65, meio esverdeada nas partes ainda não carcomidas pela ferrugem. O carro era responsável por puxar a jaula do velho leão, que faleceu durante a madrugada após o urro final no espetáculo da noite anterior -por sinal, uma apresentação em que ele não soltou nenhum canto do cisne, dizem.
Já havia um bom tempo que o Bahia andava com o freio de mão puxado, sem aquela motivação tão conhecida. A Veraneio trouxe de volta a alegria para o nosso amigo. Eufórico, ele nos convidou para o primeiro passeio apoteótico pela cidade, algo digno de fechar o comércio, por mais que isso não tenha acontecido de fato -se bem que todas as vendedoras de todos os bazares se aproximaram da rua para observar a nossa passagem.
Pegamos uma pista de ligação com a rodovia. Bahia queria testar a "macchina", fazer o motor trabalhar. E dá-lhe jogar marcha naquele câmbio atrás do volante. Da primeira para a... terceira! A segunda estava morta. Sim, você tinha que esticar a primeira até a terceira para sustentar os 40 km/h do bólido. Fumaça, cheiro de óleo queimado e a gente bambeando de um lado para o outro. O som emitido pelo carro lembrava muito um bate-bate que tive na infância.
E lá íamos todos nós, pela manhã, à tarde, diante do sol inclemente do Velho Oeste. Mas a vida era até legal, mesmo que as crianças precisassem matar um gatinho e, os mais velhos, um leão por dia.

Se fossem americanos

Se dois norte-americanos, Michael e Daniel, fossem detidos no aeroporto de Cumbica após fazerem uma piada sobre uma falsa bomba em suas bagagens e depois ficassem três meses presos na carceragem da Polícia Federal:
- O próprio George W. Bush se pronunciaria afirmando que a prisão dos dois cidadãos americanos é uma afronta à liberdade e à democracia
- Condolezza Rice incluiria o Brasil como membro honorário do eixo do mal
- Camisetas com os dizeres "Libertem Michael e Daniel" venderiam como água
- Larry Rohter escreveria no New York Times que, além de cachaceiros e gordos, os brasileiros são mal humorados e paranóicos
- Gisele Bündchen seria vaiada ao desfilar em solo americano
- Os Simpsons teriam um episódio inspirado na história, com Bart e Millhouse sendo presos na sua segunda viagem ao Brasil e levados, por policiais com sotaque castelhano e bigodes de mexicano, para uma prisão cheia de macacos e com uma arena de touros no pátio; Jay Leno e David Letterman também contariam piadas de brasileiros
- Associações de comércio americanas fariam embargo ao suco de laranja e à soja tupiniquim
- Ao sair da cadeia, os dois já teriam vendido os direitos de sua história para livro, mini-série de TV, quadrinhos, videogame e cinema
- Dois anos depois, Matt Damon e Brad Pitt ganhariam um Oscar ao interpretar a dupla de presos no filme "Scape from Buenos Aires"

24.1.05

Introdução ao Mundo Opulento de Bahia

O post do Gio me fez lembrar de um desafio proposto por um amigo meu, há muito tempo, lá no Velho Oeste. Bem, muita gente aqui já sabe o que vou contar, mas vamos lá...
A nossa adolescência nas terras empoeiradas era um pouco menos monótona do que a paisagem que nos cercava. A gente buscava diversão em qualquer coisa e, às vezes, conseguia achar.
Um dos maiores especialistas em encontrar diversão em coisa nenhuma era o Bahia. Muita gente aqui já o conhece -não pessoalmente, mas o conhece.
O Bahia era um pouco mais velho que o pessoal da nossa turma. Quando todo mundo tinha uns 16, 17, ele já estava com 20, 21 anos, por aí. O cara era uma espécie de preceptor na malandragem, aquele que apontava o rumo certo para o mau caminho. O apelido dele veio de uma notada semelhança com o Bobô, ex-meia do time de Salvador. O futebol dos dois também era bastante parecido. Porém, o "nosso" teve menos sucesso na bola, e o máximo que se aproximou do profissionalismo foi jogando uma peneira no Novorizontino -para chegar em Novo Horizonte, pegou carona em caminhão boiadeiro e, lá, comeu lingüiça toscana recheada com salitre.
Mas é melhor voltar ao desafio. Noite escura no Bar do XIII e, entre uma cerveja, um conhaque, uma pinga, um rabo-de-galo e outro, surge uma aposta.
-Ei, tão vendo aquela gorda ali?".
Sim, até "duas", impossível não ver, tão grande era.
-Então, eu já peguei!
Ah, não... Ninguém acreditou, ninguém mesmo. Era demais para nossa cabeça, era demais até mesmo para o Bahia.
O negócio é que ele lançou o desafio. Lá, no Velho Oeste, era sempre o consumador do fato quem lançava o desafio. Funcionava mais ou menos assim: "eu vou lá, pulo o muro, bato no cachorro 'brabo', subo na árvore, pego um saco de jabuticaba e volto. Quer apostar?". Aqui, na cidade grande, o sujeito fala: "vá lá, pule o muro, bata no cachorro bravo, suba na árvore, pegue um saco de jabuticaba e volte. Vamos apostar?".
O desafio que o Bahia propôs era a prova dos nove. Não tinha como fugir. Era o dele -ou talvez o da gorda- na reta.
-Vamos fazer o seguinte: eu atravesso a rua, bato um papo com ela e, meia-hora depois que eu sair daqui, você vão lá para casa. Vou deixar a janela um pouco aberta e vocês podem conferir, certo?
O negócio tinha ficado sério. Fuga impossível.
Bem, a gente viu "a bola na cal" quando ele entrou no carro da mulher e sumiu na avenida. Nós ainda tomamos mais umas até dar a meia-hora solicitada e fomos para o quintal da casa do cara. Silenciosamente, na ponta dos pés, nos postamos embaixo da janela. Um toque leve no latão foi a senha para o "show" começar. E o "show" começou. Um por um, colocamos os olhos por meio da fresta e conferimos o espetáculo bizarro. A seqüência era simples. Um levantava a cabeça, dava uma espiada e se abaixava "gargalhando em silêncio". O outro, e outro, e outro, até que todos tiveram a oportunidade de comprovar o que rolava.
A comédia ganhou "tintas de dramaticidade" (piada interna) quando surgiu a mãe do Bahia. Ela era uma senhora bastante compreensiva, capaz de ajudar os amigos do filho quando estes e o próprio estavam podres de bêbados, mas não tolerava sacanagem na casa dela.
- P.*, o que está acontecendo?
- Nada, mãe!
- E que barulho é esse?
- Tô escovando os dentes!
- Não tem torneira nenhuma aberta, P.*!
- Espera...
E nesse meio tempo, Bahia tentou enfiar a moça no guarda-roupa. E o guarda-roupa não aceitou, por questão de espaço. Então ele afastou o guarda-roupa até a metade quarto, e colocou a mulher atrás. Abriu a porta do quarto e explicou para a mãe que estava matando uma aranha, e que só não disse isso antes para não assustá-la.
Depois que a mãe dele se convenceu da estória cabeluda e foi dormir, Bahia não encontrou dificuldade para levar a moça até o carro dela e ainda dar beijinhos de boa noite. Depois, todos nós fomos cumprimentá-lo e, no dia seguinte, bebemos de novo.

*É para preservar o direito dele à privacidade.

Cala a boca, ministro!

Talvez pela minha boa vontade com o governo Lula, eu sempre vi com bons olhos a indicação do Gilberto Gil como ministo da Cultura. Hoje eu percebi que é porque dá a ele menos tempo para cantar. Só agora eu descobri que em seu último lançamento, Eletracústico, seu segundo disco ao vivo em três anos, ele teve a manha de gravar uma infame versão em português de "Chuck Berry Fields Forever", a ainda mais infame música que ele escreveu em inglês no tempo do exílio. A pérola do refrão:
"Rock é o nosso tempo, baby
Rock and roll é isso
Chuck Berry fields forever
Os quatro cavaleiros do após-calipso
O após-calipso"
Detalhe que a frase "Chuck Berry fields forever" é cantada no mesmo ritmo da canção dos Beatles cujo nome a inspirou.
E o disco ainda tem uma cover de "Imagine". Agora eu entendi porque o Paulão detonou o DVD num "Garagem" no fim do ano. Faz todo o sentido.

Beleza arrobada


Reprodução/Folha Online

Em tempos de valorização de modelos de compleição famélica, uma matéria publicada ontem na Folha de S.Paulo mostra que existem mulheres que estão felizes com seus corpos rotundos. Nem mesmo algumas obesas dispensam o uso de biquinis nas praias. Isso é muito bom. Fico incomodado ao ver que as gordinhas muitas vezes são preteridas até pelos homens gordos, que, mesmo quando são feiosos de doer, preferem conquistar as magrelas. Mas na maioria das vezes o preconceito parte das próprias mulheres, que ficam na neura com o menor sinal de surgimento do culote. Besteira. Mulheres com excesso de peso também podem ser sexy. Elas já foram retratadas pelo cartunista Robert Crumb, que parece ter predileção pelas mulheres de formas avantajadas. Até o mercado de vídeos eróticos provou que gordinhas podem ser excitantes, já que elas também foram admiradas pelo diretor John Staglianno na série de filmes Buttman´s Big Tit Adventure. Em suma, a maioria das mulheres consideradas gordas ou com sobrepeso é gostosa. Ou você acha que o resultado do Índice de Massa Corporal (IMC) - peso dividido pela altura ao quadrado - definiria de outra maneira as mulheres de coxas grossas e que fogem dos atuais padrões de beleza como Rita Cadillac, Matilde Mastrangi, Jennifer Tilly e a finada Marylin Monroe?

21.1.05

O túnel do tempo do Sesc Pompéia

Como de costume, o Sesc Pompéia promoveu uma série de shows inesquecíveis durante o último fim de semana. Sob o nome de Orquestra Manguefônica, Nação Zumbi e Mundo Livre SA apresentaram "Da Lama ao Caos", disco de 1994, faixa-a-faixa, para um público absolutamente extasiado. É difícil dizer o que foi aquilo.

Mesmo não sendo fã nem de uma, nem de outra banda, fiquei de queixo caído. Unir Nação e Mundo Livre parece que era um sonho antigo de Chico Science e vendo o show de sábado concluí que ele tinha razão em querer tal objetivo. O que foram aqueles arranjos? "O de cima sobe e o de baixo desce" e Lúcio Maia desce a mão nas cordas de sua guitarra. A força das duas bandas juntas no palco é impressionante. A mistura de rock e maracutu ganhou ainda mais peso, transportando-nos de volta aos anos 90 para concluir que "Da Lama ao Caos" estava mesmo muito a frente de seu tempo.

Em tempo: o show faz parte do projeto Disco de Ouro do Sesc Pompéia, que fez uma votação entre 12 críticos para escolher os melhores álbuns da história da música brasileira. A intenção é recriar esses discos no palco, numa interpretação inédita, faixa-a-faixa, com novas leituras. A julgar pelo show do último sábado, acho bom você prestar atenção nessa lista de mais votados: "Tropicália ou Panis et Circenses" (68), de vários artistas, ficou em primeiro lugar; "Acabou Chorare" (72), dos Novos Baianos, em segundo; e, empatados em terceiro com "Da Lama ao Caos", "Elis e Tom" (74), "Samba Esquema Novo" (63), de Jorge Ben, e "Canção do Amor Demais" (58), de Elizeth Cardoso. Os shows serão apresentados no Sesc Pompéia a cada dois meses.

20.1.05

Água que passarinho não bebe

Essa história da "água batizada" do massagista da Argentina tá com cara de assunto que a imprensa de lá usou pra preencher a entressafra do futebol e que o pessoal daqui caiu como patinho - ou resolveu aproveitar para encher espaço.
É claro que tinha coisa na água, como prova a imagem que a Globo mostrou ontem, em que o Giusti pega a garrafinha, leva a bronca do cara e pega outra para beber. O que eu acho engraçado é a imprensa brasileira dar tanto destaque a isso quase 15 anos depois. Isso é que é furo atrasado. A matéria esteve nas mãos de todo mundo no dia do jogo. O Branco falou, ainda no estádio, a história da água. A Globo também mostrou ontem essa imagem de arquivo. Só que, na hora, todo mundo achou que era mero choro de perdedor. Por que mudar de opinião tanto tempo depois?
Eu lembro bem daquele jogo. Tinha 12 anos e ainda chorava por causa de futebol (meses depois, eu me descabelaria com o empate em 0 a 0 do Palmeiras com a Ferroviária, que nos deixou mais um ano na fila). Aquele jogo contra a Argentina foi ao meio-dia de um domingo. Lembro que fui à missa com meus pais e voltamos quase no comecinho do jogo. Fomos almoçar na sala pra ver a partida. Na hora em que saiu o gol da Argentina, eu comecei a chorar e larguei o prato, desisti de almoçar.
Depois, à noite, como em todas as noites daquela Copa, eu fui conferir o "Apito Final" da Bandeirantes. Lembro da abertura como se fosse ontem: as imagens das três bolas na trave do Brasil e o gol da Argentina, cada uma intercalada por uma tela negra e a voz do Luciano do Valle: "Parece piada". O gancho era que o Brasil tinha feito uma Copa lamentável até então, e perdido justamente na única boa atuação.
Futebolisticamente, é engraçado rever o erro crasso de marcação do time na hora do gol. Desde que o Maradona pega a bola, vão seis caras em cima dele. Na hora do passe, estão pelo menos quatro brasileiros cercando o Diego, e ninguém vê que o Caniggia vai entrar sozinho e fazer o gol. É ridículo, parece a defesa do Palmeiras de 2002.
Jornalisticamente, discutir isso é perda de tempo, papel e tinta. Porque o Branco já disse o que tinha que ser dito, e nem o "jus sperneandi" da CBF vai adiantar alguma coisa - o que eles queriam? Dar a vitória ao Brasil por 2 a 1 e jogar de novo toda a Copa a partir de então, com o mesmo elenco? Ou dar ao Brasil o vice-campeonato moral?
Também fica clara no episódio a ingenuidade do jogador brasileiro. Desde sempre fala-se em "água estranha dos gringos". Em 89, uma matéria sobre Libertadores da "Placar" tocava no assunto, falando da dificuldade em punir alguém por doping na Libertadores, numa época em que os exams não eram comuns como hoje. E o Branco, jogador experimentado, nascido no Rio Grande mas desde cedo criado como malandro da Baixada Fluminense, em sua segunda Copa do Mundo, me dá uma dessa?
Certo está, quem diria, o chorão Bebeto falando na "Folha": "Eu nunca bebi água dos outros". E depois: "Quinze anos depois, rapaz? Isso já era."

17.1.05

Um-sete-um

Bezerra da Silva morreu. Bem no dia 17.1

16.1.05

O gozo de Chucky


Quando descambou para o escracho total, o roteirista Don Mancini tornou interessantes os dois últimos filmes protagonizados pelo boneco assassino Chucky (os dois anteriores, Brinquedo Assassino 2 e 3, eram um desastre). O Filho de Chucky, o quinto filme da série Brinquedo Assassino, é muito mais engraçado que seu antecessor, A Noiva de Chucky. Conhecemos o rebento de Chucky logo no começo do fime. Ele sofre tentando descobrir sua origem, ao mesmo tempo em que é explorado em um circo de horrores por um ventríloquo, que o batizou de Shit Face.
Após saber pela TV que os bonecos Chucky e Tiffany foram reconstituídos por produtores de Hollywood para uma nova produção, Shit Face consegue fugir e vai ao encontro dos pais. Sem querer, consegue trazê-los de volta à vida para acabar com a vida dos outros. Depois de descobrir que não era órfão, Shit Face ainda precisa decidir se quer ser chamado de "Glen ou Glenda" (referência ao filme de Ed Wood, considerado o pior diretor de todos os tempos), já que nasceu sem nenhuma genitália.
O Filho de Chucky traz outras referências cinematográficas, com cenas que remetem a clássicos como Psicose e O Iluminado e diálogos que tiram sarro de Julia Roberts e Mel Gibson. Uma das tomadas mais hilárias é quando Chucky sai para dar um rolê de carro com o filhão, a fim de que ele descubra seus instintos assassinos. No meio do caminho, o boneco acaba jogando o carro de Britney Spears em um precipício. "Ops, I did it again", diz Chucky, parafraseando um dos sucessos da cantora gostosinha, porém fútil.
Outros destaques do filme são a autogozação com a carreira da atriz Jennifer Tilly (que faz o papel dela mesma, além de emprestar sua voz para a bonequinha Tiffany) e a participação de John Waters, cineasta anti-establishment e de obras consideradas de mau-gosto por algumas pessoas insensíveis. Agora é torcer para que saia no Brasil o DVD com a versão sem cortes do filme, já lançada nos Estados Unidos.
Afinal de contas, dá para esperar muito mais bizarrices de um filme que traz um boneco socando uma bronha para que sua noiva despeje a porra dentro da vagina de Jennifer Tilly (o objetivo do casal de bonecos era gerar um bebê para transferir a alma de Glen/Glenda para ele, depois que os pais possuíssem os corpos de Jennifer e do rapper Redman, que também interpreta ele mesmo). Quem quiser ver um bom filme, escolha O Filho de Chucky. E não hesite em me convidar para revê-lo.

14.1.05

Bukowski na Caras

Em entrevista publicada na última edição da revista Caras, o ator americano Matt Dillon falou rapidamente sobre seu último filme, baseado na obra do velho Buk. "Fiz Factotum, longa baseado no poeta e escritor americano Charles Bukowski (1920-1994). Li tudo dele quando era adolescente e achava apelativo, pois o tema sempre gira em torno de sexo, álcool... Mas comecei a estudar sobre ele para o filme e hoje o admiro muito. Alguns dizem que Bukowski é sexista, mas não é. Ele é um grande admirador das mulheres".

Mea-culpa
Antes que me crucifiquem (e com razão), quero dizer que sou um leitor ocasional da merda da revista Caras. Isso porque recebi proposta da revista Abril de ganhar seis exemplares grátis para conhecer melhor a publicação, sem precisar fornecer de antemão o número de conta corrente. De graça, maninho, até boquete de mina que usa dentadura.

10.1.05

A japa fantasma

Assim que terminou a exibição de O Grito no Cine Ipiranga, um amigo comentou que esse filme era bem melhor que O Chamado, outra obra do cinema de horror japonês também refilmada recentemente pelos americanos. Acho a trama de O Chamado muito mais interessante (para quem não se lembra, uma repórter tenta descobrir porque pessoas morrem misteriosamente uma semana depois de assistir uma fita de vídeo), mas algumas cenas de O Grito realmente são muito mais apavorantes. Principalmente toda hora em que surge na tela a protagonista fantasma (opa, já não vimos isso em O Chamado?), uma japonesa que foi morta pelo marido e cujo espírito (de aparência amedrontadora e grunhidos insuportáveis) aparece para todas as pessoas que puseram os pés em uma casa mal-assombrada. Bem que a fantasma poderia aparecer para os engraçadinhos da platéia que passaram o filme inteiro rindo das cenas de tensão, apesar delas não conterem qualquer elemento cômico.

25.12.04

Som e fúria, né?

Já faz uns cinco anos, talvez um pouco menos, eu morava perto do Morumbi e costumava aparecer com mais freqüência aos clássicos e jogos importantes que rolavam por lá -atualmente, cada vez mais raros. Além de assistir às partidas, prestava atenção no barulho característico dessas ocasiões.
O negócio começava já no fim daquela última subida antes da Igreja Universal, na Francisco Morato. Ali, o som das buzinas se misturava aos gritos da Fiel nos ônibus, aos "Corinthians" -devidamente seguidos por "ês"- e a um ou outro rojão. Descia embalado até o Shopping Butantã, e dobrava a Jorge João Saad.
Lá, o barulho era outro. Policiais, o ruído das motos dos policiais, as sirenes de suas motos, o pocotó dos cavalos dos policiais e um parêntese no meio de tanto barulho: o cheiro da merda dos bichos. Mas tudo bem, já dava para ouvir o eco da arquibancada, aumentava o estampido dos rojões, e o tiozinho da cerveja gritava ansioso pelo nosso "clique" no anel da latinha.
Tinha também o silêncio emburrado de um ou outro mano, raro por descer sozinho, jaqueta da Pavilhão Nove nas costas, e com o zunido de algum pipoco da noite anterior no ouvido. Rolava também o playboy loiro de uns 18 anos, gritos de bezerro desmamado, procurando o papai para bancar a numerada superior na mão de algum cambista com voz de raposa.
Apesar de tudo, pouca confusão. Com a batida seca do cacete para uns e o "por ali, senhor" para outros, a PM já garantia a divisão entre geral e cadeira cativa a uns 300 metros do estádio. Na frente do Cervantes, já era possível saber quem iria gritar "senta" e quem mal veria o jogo, ciente do que rolaria só pelo grito do gol.
Mais para frente, o som do surdo descia da Giovanni Gronchi até a praça. Decisão contra time de fora ou Santos e Portuguesa, a nossa torcida se encarregava do monocórdio. Contra Palmeiras ou São Paulo, provocações em alto volume e baixo nível.
Na subida da rampa, um burburinho só e a festa de quem já havia entrado. Só um pouquinho, um pouco mais, e aquele corredor. Aquilo que na TV se parece com um buraco no meio da torcida já foi um portal para mim, a entrada da arquibancada, o lugar onde descobri que o barulho produz calor.
E era assim mesmo. Com a nossa torcida aguardando, eu era recebido pelas vaias do adversário -sim, elas foram mandadas o tempo todo para mim. Agora eu achava legal mesmo era, logo de cara, colocar a minha voz ao lado do povão e urrar em "Lá maior" contra o pessoal do outro lado. Imaginava sempre que um amigo do João e do Michel estava lá. Os dois eram palmeirenses fanáticos -o João chegou a se fingir de aleijado, com uma muleta safada e tudo, para furar fila de ingresso em decisão de Libertadores-, trabalhavam comigo e tinham um companheiro chato pra caralho, que só de lembrar me dá vontade de coçar o saco.
Bem, depois das saudações iniciais ao amigo dos dois, achava um lugar na arquibancada e ficava ouvindo a Simone berrar "Será", e eu me encantava com aquilo. É impressionante como algumas músicas ridículas ganham um ar diferenciado em um contexto bem particular. É irracional, e sei que não é difícil concordar comigo. Aquele "sééééééraaaa... só imaginação" no meio dos cânticos das torcidas era impressionante. Tinha uma força e tanto. Precedia os jogos e colocava tudo em perspectiva -"sééééééraaaa que vamos conseguir vencer... ôôôôôô!". E, no fim, ainda vinha aquele "brigar prá quê, se é sem querer, quem é que vai nos proteger?". Caralho, e ainda penso que se fosse cantada a original, na voz do Renato Russo -que admiro bastante-, o efeito não seria o mesmo.
E rolava então a entrada em campo do trio de arbitragem. Um ou outro "filho-da-puta", aquela vaia estridente, um momento de união entre a gente e os outros. Depois, o adversário -sim, na minha lembrança é sempre o rival que entra primeiro. Não é por nada, mas o nosso grito, um só em milhares, era de botar medo. O "Todo-Poderoso Timão" é uma das coisas mais impressionantes já ouvidas em um estádio de futebol -já ouvi são-paulino, palmeirense, santista, flamenguista, etc., também dizendo isso. É o nosso "We are the champions". É foda, e uma foda prolongada -"ê-ô-ê-ô, é Tricolor, é Tricolor" é uma ejaculação precoce, e não se sabe quem está gozando.
O Corinthians entrando em campo fazia levantar até os velhinhos. Fé profunda, mesmo, de incerteza no resultado, mas de uma comunhão só nossa.
Entre o apito inicial, o intervalo e os 40min do segundo tempo, tudo podia acontecer. Não sei, acabei ficando com a derrota. Sim, hoje nós perdemos. Aquela queda anunciada ainda antes de terminar o jogo.
Desconfio que, para não dar azar ou ter de levar para casa, a torcida queimava os fogos da vitória mesmo na derrota. O barulho de um deles é inesquecível. Um sibilado, sem explosão. Parecia um adeus. Cortava a arquibancada. Serviria de introdução para música do Joy Division. Sei lá, uma "Decades", ou talvez "Insight".

21.12.04

Papai do céu,

Como me comportei bem durante quase todo ano, acho que mereço meu presentinho. Também sei que minha listinha inclui itens bem difíceis, como uma edição nacional daquela caixa do Nirvana. Então resolvi trocar meu presente desse ano por um pedido para minha próxima vida. Você sabe que, no fundo, eu não acredito nesse negócio de reencarnação, mas tem tanta coisa que eu duvido que exista e que existe que sabe-se lá o que acontece quando a gente junta os pés pra sempre. Então, o pedido é um só, mas tem uma seqüência de prioridades, como as fichas de inscrição de vestibular.
Na próxima encarnação, eu quero:
1- Ser um passarinho. Mas desses bem vagabundos, tipo pardal, pra não ter perigo nenhum de acabar dentro de uma gaiola;
2- Se a opção "reencarnação em bicho" não estiver disponível, aceito com prazer o papel de índia duma tribo perdida na Amazônia, sem contato nenhum com qualquer tipo de civilização (internet, ãh?!?!?!);
3- Agora, se nenhuma das opções acima puder ser realizada, Deus, por tudo que há de mais sagrado, me faça homem, porra!

16.12.04

Calor

Estava hoje na plataforma de desembarque da Linha Azul do metrô, na estação Sé, e, talvez pela temperatura mesmo, acabei lembrando do calor que faz no Velho Oeste nesta época do ano.
Depois de passar uns quatro meses de uma seca terrível, bem característica do inverno daquela região, vem o sol inclemente de um verão que se inicia por lá já na metade da primavera.
O negócio começa a pegar fogo ainda às nove da manhã, e se estende por todo o dia, até umas oito da noite. Este intervalo de quase 12 horas é um inferno - se a sua casa tiver cobertura de concreto, então a noite também será.
Lá pelas duas da tarde, só umas poucas almas são vistas. O pessoal se refugia nas sombras. Os varredores de rua deitam sob as árvores. É quando as bolhas estouram e o asfalto começa a derreter.
A poeira vermelha também participa da encenação. Ela é resultado de uns 40 anos de sucessivas safras de café pouco planejadas, logo substituídas pela cana-de-açúcar e, então, na última década, por nada.
Em 1996, um outro integrante do Escambau foi até lá buscar uns documentos. Acostumado à formação serrana do Nordeste do Estado, ele cruzou uns 200 km daquele pedaço do Oeste e, na volta, falou sobre o que viu: "Nada". Nas palavras dele, a paisagem permaneceu inalterada logo após Oriente, perto de Pompéia. Um relevo com poucas variações e pasto sem gado sobre o planalto durante todo o trecho. A natureza naquele miolo entre os rios Feio e do Peixe dá um puta tédio.

15.12.04

Pé na lata

Nesta época do ano, o sol ia embora, dava umas oito da noite e aparecia aquela molecada toda na rua onde eu morava lá no Velho Oeste. Então começava a busca desenfreada por uma lata de óleo vazia. Aí, a gente colocava a lata no meio da rua, definia o cara da vez e o restante corria para se esconder.
Se fosse o cara da vez, você teria que encontrar um por um e juntar todos em uma fila ao lado da lata, até o último escondido. Depois de um tempão, você já tinha uns 20 "pegos", reunidos em uma corrente que atravessava a rua. Faltava um, vai.
Aí, começava a bater uma sensação de desespero. Se deixasse os "pegos" abandonados, corria o risco de ver surgir esse último, que meteria o PÉ NA LATA e livraria todo mundo para se esconder novamente. Às vezes, era isso o que acontecia.
A brincadeira recomeçava, e o pesadelo também. Teria que encontrar todo mundo, organizar todos em fila, colocar as coisas no lugar novamente. Era foda pra caralho. Mas foda pra caralho, mesmo, era quando isso acontecia pela quarta ou quinta vez. Quando rolava com um babaca, ele torcia para ficarem com pena e desistirem da brincadeira. Já o cuzão era mais filho da puta ainda: entrava correndo em casa e se escondia debaixo da saia da mãe. Outro tipo era aquele meio masoquista que ficava na vez a noite toda se fosse preciso e depois ia dormir tranqüilo, esperando o negócio recomeçar no dia seguinte. Bom, todos se fodiam, mas cada um lidava com isso de uma maneira diferente. De qualquer forma, era só uma brincadeira no fim do mundo.

13.12.04

Caras e bocas


A revista Trip já havia promovido uma invasão pacífica na Ilha de Caras com celebridades populares como MC Serginho, Lacraia, Perla e Regininha Poltergeist. Mas coube à turma do programa Pânico na TV o papel de esculhambar com o local usado pela revista Caras para reunir no verão os famosos de vidinha fútil e que se levam a sério. As imagens da invasão nada pacífica do Pânico (que creditou a revista como fonte inspiradora) foram ao ar ontem na Rede TV! e contou com a participação de pessoas ilustres como Rafael Ilha, Silvinho (aquele do ursinho Blau-Blau), Rodela (a formosura da foto acima), Bandida e a ex-mallandrinha Elaine. O grupo estava acompanhado dos humoristas Zé Fofinho (que fazia o papel de Mano Quietinho) e Mendigo, que entraram em atrito com os seguranças e turistas argentinos que estavam hospedados na Ilha de Caras. O tempo quase fechou entre os humoristas e os argentinos. Vale a pena conferir a reprise do programa, atualmente uma das melhores atrações da tevê brasileira, às 23h do próximo dia 17.

Fragrância
Um amigo disse ontem que tem vontade de receber um peido na cara de nádegas voluptuosas como as da falecida Krysti Linn. A confissão foi dada após eu comentar que havia recebido por e-mail um vídeo com mulheres peidorrentas sentando na cara de seus escravos sexuais. O sacana disse que chega a ficar excitado ao ver a sainha de uma gostosa levantando levemente por uma bufa no video Just Lose It, no qual o rapper Eminem parodia o cantor Michael Jackson. O curioso é que esse meu amigo fetichista tem uma mania chata de limpeza (fica sem comer se não tiver onde lavar as mãos, por exemplo). Sabia que essa frescurada toda não cheirava bem mesmo.

10.12.04

Gessinger virou indie?

Muito prazer, meu nome é otário
vindo de outros tempos mas sempre no horário
peixe fora d'água, borboletas no aquário
muito prazer, meu nome é otário
na ponta dos cascos e fora do páreo
puro-sangue puxando carroça
(...)
ás de espadas fora do baralho
grandes negócios, pequeno empresário
muito prazer, me chamam de otário"

É a letra de "Dom Quixote", uma das músicas que mais me chamou a atenção no Acústico MTV do Engenheiros do Hawaii. Além da melodia simpática, eu gostei da letra. É claro que tem aquelas concretices que marcam a carreira do Humberto Gessinger, mas é muito boa essa elegia do perdedor.
Foi então que eu me toquei que isso nada mais é que uma grande emulação do espírito indie. Riqueza lírica à parte, qual é a diferença na essência entre isso e "E se um ônibus de dois andares / nos atropelar / Morrer ao seu lado é a melhor maneira de morrer"? Ou com "Eu sou um perdedor, baby / Por que você não me mata?"
Taí, Engenheiros é indie e eu nunca me toquei disso...
.
.
.
Eu até gosto de Engenheiros. Pelo menos até o disco verde, que tem "Pianobar", que é legal. Depois perdi o interesse e achei as músicas que apareceram nas paradas meio chatolas. Ainda gosto de algumas coisas antigas, tipo "Terra de Gigantes" e "Infinita Highway" (que, aliás, estão incompletas no Acústico). Agora, tem certas coisas que não dá para aturar. Tipo o cara botar a filha de 12 anos para cantar o verso "Vamos namorar à luz do pólo petroquímico".
Mas até que essa música do otário é bonitinha...

29.11.04

Aluga-se

Ontem, peguei uma bicicleta, coloquei a minha filha na cadeirinha colocada no guidom e saí passeando pelo parque. Fazia muito tempo que eu não pedalava. Fiquei até com medo de cair. Por outro lado, tinha fé de que não seria eu a desmentir aquele ditado sobre as pessoas dificilmente desaprenderem coisas legais conhecidas ainda na infância.
E aí, apertei o cinto na pequeninha, levantei o descanso, me acomodei no selim e forcei o pedal. Roda girando, vento no rosto, aquele negócio bobo de passar com os pneus nas poças d'água só para deixar algum rastro no caminho. Não demorou nada para perceber que alguém, além de mim, estava curtindo muito o passeio.
"Vamo, papai! Eu quero corrida!" - e toca a aumentar o ritmo das pedaladas. "Vamo voar!" - e dá-lhe bracinhos abertos. "Parece uma moto, né, papai?" - sim, quase isso.
Como já era esperado, o céu ficou escuro e começou a pingar. Fiz o balão e voltei ao ponto em que pegamos a bicicleta. Eles ficaram com R$ 2 pela meia-hora e devolveram a minha identidade. De qualquer forma, fiquei contente por saber que só o tempo interrompeu nossa alegria.
No começo, manter o equilíbrio pode até ser difícil, mas não deixa de ser mais fácil do que aprender a cair. Duro mesmo é saber que existe felicidade de aluguel e que nem eu ou minha filha estamos livres disso.

25.11.04

Não vi e não gostei

Basicamente, existem quatro tipos de filmes produzidos hoje em Hollywood: a continuação; a refilmagem de clássico; a refilmagem de filme estrangeiro; a adaptação de best sellers. Difícil quem consegue fugir disso. Mas ficarei com esse último tipo. Há tempos estou para perguntar para o Fernando, meu colega escambáutico especialista hornbyano, o que ele acha da adaptação norte-americana de "Febre de Bola", cujas filmagens estão chegando ao fim. Ah é, tem uma adaptação de 2001, mas ninguém viu (embora se registre a presença importantíssima do charmosérrimo Colin Firth).
Nem preciso falar que i-love-nick-hornby, que cumpri o ritual livro-CD-peça-filme-DVD com "Alta Fidelidade", mas "Febre de Bola" eu não li. Sabe comé, futebol é legal, mas enjoa. Enfim, voltemos ao filme. Se o livro se passa na Inglaterra e seu protagonista é vidrado no esporte bretão, o longa se passa nos Estados Unidos e tem no personagem de Jimmy Fallon (!) um apaixonado pelo Red Sox, um time de... beisebol! Hum, não sei não, mas esses detalhes parecem meio que fundamentais em se tratando de uma "adaptação". Mas como se não bastasse isso, o Red Sox ganhou a última temporada de beisebol, coisa que não acontecia desde 1918, segundo informou meu colega ex-escambáutico Luiz, que torce para os meia-vermelhas. Como as gravações aconteceram em meio ao campeonato americano, Fallon terá um final duplamente feliz: no amor e no beisebol.
Se Hornby estivesse morto, diríamos que ele estaria se revirando no túmulo. Mas como ele está vivinho da silva, aproveita para encher as buchas de dinheiro. Mais que certo.
Mas e aí, Fers, vai encarar?

13.11.04

A música do ano

The Killers, "All These Things I've Done". Pra fazer arrepiar o último pelo do corpo.

8.11.04

Cedo demais

Hoje, estava próximo ao metrô, ouvindo "Fake Plastic Trees" no discman, e vi um cara de calça jeans, jaqueta vermelha, barba e cabelos brancos, bastante compridos. Ele devia ter entre 40 e 50 anos. Imaginei que pudesse ser o Papai Noel e acho que você também imaginaria.
Sem querer, acabei seguindo o sujeito. Ele chegou primeiro que eu na entrada da escada rolante e desceu uns dois ou três degraus à frente. Fiquei olhando para a cabeça dele, bastante vermelha.
O cara saiu da escada numa boa, sem aquele andar pesado de quem carrega sonho de criança nas costas. Ele não carregava nada mesmo. Foi andando - e eu, atrás - até que chegou à catraca. Meteu o bilhete e, quando tirou, vi que restavam ainda cinco passagens. No meu, sobraram só quatro.
Ele foi para um lado, eu fui para outro. Deve ter seguido para casa, para alguma agência de emprego. Uma hora dessas, já deve estar alimentando as renas, escolhendo novas ajudantes, tirando as medidas nem tão fartas para uma nova fantasia ou até mesmo pagando a conta de luz, enfim.
Fiquei pensando no que as pessoas fazem quando não têm importância, quando são como Papai Noel em novembro.

6.11.04

Folga

Dia desses o pessoal estava na redação da rádio quando toca o telefone. A repórter atende o telefone e, do outro lado da linha, começa a falar, em desabalada carreira, um assessor de imprensa querendo empurrar uma pauta. Mais que rapidamente, a repórter, para se desvencilhar do nobre colega, dá o e-mail do jornal para que o cara encaminhe a pauta.
Em menos de dez minutos, a tal pauta chega. Cascata, como 97,5% das pautas propostas por assessores. Eu pego, leio, imprimo e jogo direto na vala, que é como eu chamo a caixa de pautas para algum dia desses, ou seja, que nunca serão feitas. Nem como calhau servem.
Dez dias depois, eis que o assessor liga. Inconformado: "Como que já passou todo esse tempo e ninguém de vocês me ligou para fazer a reportagem? Então eu vou passar pra outra rádio!"
Ainda bem que eu não atendi o telefone. Mandar tomar no meio do cu seria só a primeira resposta. Tem neguinho que perdeu completamente a noção de limite e bom senso. Tem futuro como jornalista, pelo jeito...

5.11.04

I've seen horrors*

"I watched a snail crawl along the edge of a straight razor. That's my dream. That's my nightmare. Crawling, slithering, along the edge of a straight... razor... and surviving"*

Às vezes, a vida sobre a lâmina afiada fica pesada demais. Nem sempre é fácil aliviar o peso para não se cortar. Mas o importante é ir levando. Eu estou vivo.

*É, você já viu esse filme também... De Saigon ao miolo do Mekong, da nossa inocência ao coração das trevas.

2.11.04

O retorno

Eu ainda estou vivo, desgraçados!
(Não é só o Fausto que faz referências cinematográficas no Escambau)

Carona
Um funcionário da presidência da Câmara Municipal de Ribeirão Preto foi exonerado ontem porque o filho dele foi flagrado pela polícia dirigindo um carro oficial sem habilitação. Para piorar a situação, o rapaz estava com dois amigos parado em um ponto de travecos. Los três amigos conversavam com duas bonecas quando a PM apareceu. O motorista-sem-habilitação alegou que queria apenas dar uma carona para as "meninas". A gente já viu essa história antes por aqui.

Chifrinho
Sabe aquela mania besta que quase todo mundo tem de fazer com os dedos o sinal de vitória atrás de alguém que está sendo fotografado para simular chifrinhos? Pois é, um maluco teve a coragem de colocar chifrinhos em um delegado que dava entrevista para a Rede Globo no dia em que uma quadrilha invadiu uma transportadora de valores em São Paulo para roubar 4,7 milhões. O delega se ligou na hora e deu uma chave de braço no atrevido. "Vai colocar chifre na sua mãe", vociferou o policial. "Desculpa, senhô", disse o carinha ousado, tentando mostrar-se arrependido. Depois que o cara foi colocado em um camburão e levado para uma delegacia, o delegado acalmou os amigos do mané. "Ele só vai levar uma canseira e logo depois vai ser solto. Isso se não tiver passagem pela polícia". Será que o carinha rezou para todos os santos pedindo para escapar dessa? Nem o mais chifrudo cramulhão teria tamanha ousadia.

29.10.04

Estupidez

A morte de Serginho acende três sinais amarelos no futebol brasileiro. O principal deles é a precariedade do cuidado que os clubes têm com os jogadores. Não é possível constatar uma anomalia no atleta e simplesmente liberá-lo para jogar dizendo que há uma chance em 100 de acontecer alguma coisa. Ora, um time como o São Caetano faz cerca de 80 jogos por ano; uma chance em 100 significa que, na melhor das hipóteses, Serginho teria empacotado em março ou abril do ano que vem.
O calendário, aliás, é a segunda luz amarela. É um problema do futebol mundial, e não apenas do brasileiro, na verdade. Claro que todo mundo adora ver milhões de jogos na TV, que o torcedor fica até meio órfão quando seu time não está jogando na quarta-feira. Mas não dá para continuar desse jeito, com um cara podendo fazer até 90, 100 jogos por ano, se incluirmos as seleções no rolo. Isso não é problema de hoje, mas, até agora, muito foi dito e pouco foi feito. Diminuir o Brasileiro para 20 clubes é um passo, mas está longe do ideal. O certo seria o clube jogar no máximo quatro competições por ano: Brasileiro, Estadual, Copa do Brasil e Libertadores ou Sul-Americana. O Brasileiro iria de fevereiro a novembro, e os outros torneios se revezariam no meio da semana. Dá para fazer. Volto ao assunto quando der.
A terceira luz amarela já não é só relativa ao futebol, mas à sociedade brasileira como um todo: a estrutura que mantém o jogador dependente exclusivamente do esporte. Dizem que o Serginho teria assinado um documento isentando o São Caetano de qualquer responsabilidade no caso de uma tragédia. É só se colocar na cabeça do cara: 30 anos, mulher e filho pequeno para sustentar, fora os pais e os 10 irmãos no Nordeste... Meu, neguinho assina qualquer pedaço de papel higiênico para continuar jogando! Afinal, esse é o trabalho dele, não sabe fazer outra coisa na vida, não estudou, não foi preparado para nada. Eu tenho até dúvidas quanto ao valor legal de um documento desses.
O certo, para remediar um caso desses, era aposentar o cara, ou no mínimo separá-lo para tratamento, e o São Caetano se responsabilizar por algo, nem que fosse uma bolsa de estudos para o cara fazer uma faculdade. Afinal, não dizem por aí que o São Caetano é um clube estruturado, profissional e o escambau? Foi o que o Atlético-PR, outro clube considerado "ascendente", fez com o Washington. Deu no que deu: o cara está aí, artilheiro do campeonato, o time lutando pelo título. Que cabeça o time do São Caetano vai ter agora para continuar jogando e lutando pelo título?
E agora é tarde para conjecturas. Serginho está morto, enterrado, e o show tem que continuar. Mas que seu exemplo faça com que os cartolas mexam suas bundas gordas e tomem atitudes para evitar que, daqui a um ou dois anos, por mais uma incrível coincidência de idiotices, a gente tenha que presenciar um novo fato lamentável.

A velha história
E mais uma vez o cara morre e se torna um semideus. De todo o material que saiu na imprensa, só houve dois toques na ferida: só a Folha lembrou que ele perdeu o pênalti decisivo na Libertadores-2002 (como havia perdido contra o Palmeiras, na Libertadores-2001) e depois amarelou de vez, pedindo para nunca mais bater pênalti. E só o Estado lembrou que, nos últimos tempos, ele havia se envolvido em brigas e trocas de acusações com Romário, Luís Fabiano e Robinho.
Serginho nunca foi um Beckenbauer ou um Baresi, nem mesmo um Luís Pereira. Era um zagueiro razoável, que se encaixava bem no eterno esquema tático ultra-defensivo do São Caetano, mas que nunca foi cogitado para a Seleção Brasileira, como Dininho, ou para ser contratado por um clube realmente grande, como aconteceu com Daniel, para ficar nos seus parceiros de zaga mais conhecidos. Dizer agora que o São Paulo e o Palmeiras deixaram de contratá-lo por causa do problema cardíaco é até um desrespeito com a memória do cara. Fatos são fatos e não há tragédia estúpida que possa apagá-los.

26.10.04

O primeiro Coen

Se você estiver de bobeira na quarta-feira pós-feriado, dia 3 de novembro, não perca a última sessão de "Gosto de Sangue" na Mostra desse ano. O chato é que o horário é meio complicado, 16h20, mas vai que você tem uma diarréia, ou sua tia-avó morre, ou você simplesmente se esquece de voltar ao trabalho depois do almoço. "Blood Simple." (título original) é de 1984, o primeiro filme com a assinatura dos irmãos Coen. A direção é de Joel, a produção de Ethan e o roteiro de ambos, mas sabe-se lá quem faz o quê, eles são praticamente uma só pessoa. O certo é que "Gosto de Sangue" tem todos os elementos que fizeram de "Fargo" um sucesso e tornou os manos conhecidos mundo afora. Duas características se sobressaem: a seqüência de mal-entendidos que vai envolvendo os personagens e a máxima "todo mundo pode se tornar um assassino, basta que existam motivo e oportunidade". E "Gosto de Sangue" tem humor negro, o que é sempre bom. A cópia em exibição na Mostra é a do filme restaurado, com uma pequena introdução: um velhinho numa biblioteca, que tira o cachimbo da boca para recitar seu texto de apresentação do longa. Impagável.

Porque odeio dinâmicas de grupo

O tema é recorrente, mas a história é nova.

Cá me encontro sentado entre outros candidatos, na fase final de seleção para uma vaga que não é lá bem o que gosto de fazer, mas paga o suficiente pra me fazer esquecer disso.
Enquanto a psicóloga mais novinha paquera a mim e mais outros dois concorrentes ao mesmo tempo, o cara loiro fortão formado em Marketing (formado em entrevistas, me parece) responde exatamente tudo aquilo que a outra quer ouvir. E como ele é rápido, tem todas as respostas cuidadosamente estudadas na ponta da língua! Qualquer hora ele vai levantar e gritar "bingo!", tenho certeza. A executiva do banco tem ar de mandona, daquelas pessoas que estão sempre certas, mesmo quando estão erradas. Posso imaginá-la perfeitamente com sua roupa de dominatriz sob o taller desabotoado, com os óculos quadrados de armação fina na boca esperando o cara do Marketing para uma reunião de negócios após o expediente. O páreo vai ser duro entre eles.
Quanto a mim, respondi até agora mais perguntas sobre que lugares interessantes tem pra se visitar na Espanha do que sobre a vaga em si. A conversa não está tomando o rumo que eu gostaria. Mas pensando bem, um ser essencialmente maligno como uma psicóloga jamais iria me paquerar durante o ritual satânico da dinâmica de grupo. Ah, peguei você! Me desvencilho da distração e me concentro em não ser eu mesmo para responder as perguntas da outra psicóloga, do jeito que ela quer ouvir.
Coisa engraçada essa, vou precisar usar tudo que aprendi sobre seres infernais nesses últimos anos. Começo a aplicar as técnicas conforme a situação. Células-tronco e aborto? Hm, tema cristão, mas ela me parece moderninha e feminista. Não se mexa na cadeira, relaxe a musculatura, respire normalmente, fale calmo e foque na janela atrás da cabeça dela para suas pupilas não se dilatarem. Hah, não foi fácil, mas funcionou. Justiça social? Uma mexida discreta na cadeira, olhar fundo nas pupilas dela vai fazer com que as minhas se dilatem, inspirar mais profundamente. E assim vamos dançando, eu, ela, o cara do Marketing e a executiva do banco, enquanto corre a entrevista.
Infelizmente o cara formado em Marketing é muito melhor que eu. Claro, eles recebem um pouco de sangue de demônio em algum ritual profano na faculdade, o que os deixa muito mais sintonizados com os seres dos planos inferiores do que qualquer mortal. Mas eu não sou qualquer mortal, penso. Mesmo assim a concorrência é desleal. Os dois mais expressivos do grupo percebem a minha aproximação e manobram de modo a só terem que concorrer entre eles. Acabo ficando impaciente e cometendo um erro fundamental, e os olhares trocados entre as duas celebrantes do ritual macabro, mais o que anotaram ao lado do meu nome em seus caderninhos, indicam que deixei de concorrer à vaga naquele instante. Estou fora. Mas ainda tenho essa prova com questões ridículas, que visivelmente testam mais minha paciência que o meu raciocínio.
"... e ao escalar o Everest você encontra um guru da macroeconomia.(sic) Baseado na conversa que vocês tiveram por 10 minutos, quais serão as tendências dos fundos de investimento no próximo ano? E em qual time você apostaria no Campeonato Brasileiro?"
Sua Resposta: Obviamente sobraram apenas dez laranjas, uma vez que os hábitos alimentares dos jacarés de papo amarelo não incluem alpiste.
Confesso que até eu fiquei surpreso ao ver essas palavras calcadas à tinta com a minha letra na folha de respostas. Talvez não tenha muito a minha cara, mas considerem as condições: eu estava puto da vida em ter perdido a manhã inteira ali, enchendo bexiguinhas e pintando palhacinhos, e a entrevista já estava perdida mesmo. Além do mais sempre quis dar essa resposta pra alguma coisa. O momento não poderia ser mais apropriado. Chato não foi ter que ler isso em voz alta, foi ver que só um cara riu... Bom, acho que ele também perdeu a vaga, mas ao menos foi sincero.

Já faz dois meses, entrei de férias, voltei das férias e, surpresa! Ninguém me ligou. Talvez eu tenha que aprender a mentir melhor antes de conseguir uma vaga de gerente em uma multinacional alemã. Vou ficar aqui no barco viking por mais algum tempo, e me devolvam logo o meu remo, por favor. Ei, quem sabe se remarmos todos na mesma direção saímos dessa bruma algum dia... Não? ah, tudo bem, já sei, reme, reme, reme. Algum dia as brumas se dissiparão sozinhas. Amém.