17.3.04

A melhor puta da rua Augusta


Neuza Sueli voltou a fazer ponto na rua Augusta, de sexta a sábado, às 21h, e domingo às 19h30. As outras mulheres da rua dificilmente cobram menos de 50 reais por meia hora, fora o preço do hotel, mas Neusa Sueli sai mais cm conta. Você pode tê-la por uma hora e meia pagando só 20 pilas. Ela está velha e decadente, mas vale cada centavo. Porque Neusa Sueli faz o programa completo. Ela se abre toda, coloca à disposição os peitos, a boceta, a bunda e os intestinos de sua alma. Toda a sua vida de bosta, “monte de bosta, fedida, fedida, fedida”.
Neuza Sueli é o nome de guerra de Cácia Goulart, que encarna a personagem de Plínio Marcos na peça Navalha na carne. A montagem dirigida por Joaquim Goulart voltou ao cartaz no teatro Augusta, lá no porão – ao mesmo tempo, acima dela, a ex-Tiazinha Suzana Alves tenta sair da vida de puta televisiva e se firmar como atriz “séria” com uma peça chamada Marido Bandeira 2 (Suzana também está em cartaz no N.e.x.t. da Rego Freitas com a peça Perdidas, que antes se chamava Putas, mas aí já é abrir parêntesis dentro de parêntesis).
E é do grande caralho. Cácia está impressionante. Uma das melhores performances que vi em cima de um palco nos últimos tempos — junto com a Amsterdan de Fernanda D`umbra, a gritar “e eu tô muito louca, eu tô sempre muito louca”. Forte, muito técnica. E também corajosa, porque é preciso se desnudar de verdade, iluminar rugas e pelancas e jogar no lixo qualquer traço de vaidade para viver Neusa Sueli, a puta fodida que é moralmente currada pelo cafetão Vado (não é à toa que o filme de Neville de Almeida, com a Vera Fischer gostosona, é uma bosta).
Acho que poucas vezes uma personagem feminina foi tratada com tanta crueldade como neste texto do Plínio Marcos. Vado não precisa foder o cu de Neusa Sueli à força até sangrar durante dez minutos no chão sujo de uma passagem subterrânea, como o Tênia do filme Irreversível. O que ele faz é quebrar a prostituta com gestos e palavras, recusando-se ostensivamente a comê-la e escancarando-lhe a velhice e a feiúra:
Você está velha. Outra noite, cheguei aqui, você estava dormindo aí, de boca aberta. Roncava como uma velha. Puta troço asqueroso! Mas o pior foi quando cheguei perto pra te fechar a boca. Queria ver se você parava com aquele ronco miserável. Daí, te vi bem de perto. Quase vomitei. Porra, nunca vi coisa mais nojenta. Essa pintura que você usa aí pra esconder a velhice estava saindo e ficava entre as rugas, que apareciam bem. Juro, juro por Deus, que nunca tinha visto nada mais desgraçado.
Se Tênia batia a cabeça de Monica Belucci contra o chão de concreto até não restar mais rosto, Vado arrasa com Neusa obrigando-a a olhar a data de nascimento no RG e encarar o próprio rosto no espelho. Na montagem, o espelho, como o resto do cenário, é invisível, mas muito presente, e Cácia/Neusa acaba olhando chocada em direção ao público.
É teatro do bom, “pobre”, sem frescura. A cenografia de André Cortez consegue dizer o máximo com quase nada: uma cruz desenhada sobre o chão. No centro, um divã que faz de cama. Os atores permanecem o tempo todo presos à cruz. Eles nunca saem do palco: quando o personagem "sai de cena", os atores se limitam a ir até a extremidade de um dos braços da cruz e parar, de costas e imóveis. Sempre presos àquele quarto e ao drama dos personagens que só conseguem gozar tripudiando uns sobre os outros.
A direção é pesada. As atuações são exaltadas, no limite do exagerado, e os embates entre os personagens são tão físicos quanto verbais. Não sobra espaço para sutilezas. A relação entre Vado e Veludo não tem nada de ambígua, é escancarada, mesmo: o veado é encoxado com gosto pelo cafetão, ao mesmo tempo em que recebe um fio-terra de Neusa Sueli.
Pena que a interpretação de Edmilson Cordeiro não tenha conseguido ir além do estereótipo do bandido mau. O Vado que ele faz é duro e pouco convincente, sem a ginga que seria de se esperar de um cafetão. O pior momento da peça é quando ele se joga ao chão, vencido, e chupa o dedo como neném. Parece injustificado, soa forçado. Muito melhor é o desempenho matador de Genésio Guerra, que criou para Veludo a figura de uma bicha sinuosa e desafiadora.
Por tudo isso, corre lá na Augusta para ver Navalha na carne. Na saída do porão, não esquece de reparar nas mulheres com botas até os joelhos e nas luzes de neón vermelho, e imagina quantos outros dramas de dor e solidão devem estar rolando nesse instante, tão perto de você.

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